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Simplicidade

  • Foto do escritor: Beatriz Estima
    Beatriz Estima
  • 2 de out. de 2019
  • 3 min de leitura

Eu tenho uma fama de perder o ônibus sempre que saio do trabalho. Faço todos os dias a rota São João del-Rei -> Tiradentes e pego o mesmo ônibus todos os dias, o problema é que se você perde um, o próximo é só depois de quase 1h. Tempo demais esperando à toa, mas eu já me acostumei com isso.


Naquela tarde não consegui sair do trabalho no horário certo, me obrigando a pegar o próximo ônibus. Sem saber muito o que fazer enquanto ficava à espera, resolvi comer um salgado que me sustentaria até voltar da faculdade. Ao retornar da lanchonete, fiquei em pé no ponto que não era o meu costume, mas era o lugar mais próximo da lanchonete.


Ali, segurando meio sem jeito um guarda chuva gigantesco, parou duas senhoras ao meu lado perguntando se o ônibus já tinha passado. À minha resposta negativa, as senhoras se acomodaram encostadas na parede e conversaram entre si.

Depois de um tempo incomodada com aquelas senhoras de meia idade no meio da chuva, resolvi falar:

- Tem certeza que o ônibus de vocês passa aqui?

- Claro, menina. Respondeu a mulher mais velha.


Elas voltaram a conversar, mas dessa vez começaram a me incluir na história. A mais falante de todas (descobri que seu nome é Huda), começou me dizendo que era tiradentina nata, mas que há 20 anos decidiu morar no “vilarejo” do Bichinho, distrito que fica um pouco mais de 6km de Tiradentes. Enquanto eu me encantava com seu jeito divertido de falar, Huda me explicava que Tiradentes mais de 20 anos atrás era um lugar bom de se morar, apesar de não haver nada. “Isso aqui tudo era uma roça, mas era uma roça boa” comentava a mulher, dando uma risada de mostrar todos os dentes.

- A gente fumava maconha nos becos da cidade e ninguém nem via, porque não tinha ninguém por aqui… - explicava Huda, enquanto eu olhava surpresa para aquela senhora excêntrica. - Cuidado com as coisas que fala pra menina - retrucou a amiga de Huda que ficava, assim como eu, rindo dos comentários da mulher mais velha.


Huda soltou uma enorme gargalhada e eu acompanhei. Incentivada pela boa presença da mulher, respondi com: “E a senhora ainda fuma?”, ao passo que Huda semicerra os olhos e me lança um olhar de cumplicidade, sorriu com o canto da boca e soltou: - Claro que sim, né menina.


Eu só sabia sorrir. Aquela simpática senhora me convidou para visitar sua casa, disse que tem um atelier onde faz arte com peças recicladas no distrito do Bichinho. Me chamou para tomar um café e conhecer a vila que agora chama de lar.

Ainda continuando a contar suas histórias, Huda explica que às vezes cansa de tentar salvar o meio ambiente com sua arte.

- No fundo, eu queria mandar todo mundo ir à merda. Mando o ser humano todo tomar no cú pra parar de poluir. Mas ai eu desisto e continuo fazendo minhas artes quieta.

Impressionada não só com o vocabulário indignado e repentino, só balancei a cabeça concordando, mais encantada com a autoridade daquela mulher. O ônibus das duas senhoras chegara, enfim, antes que o meu. Elas deram sinal e subiram naquele transporte já puxando papo com o motorista que parecia ser um grande amigo.


Não sei quando verei Huda novamente, mas não consegui parar de pensar na figura daquela mulher espalhafatosa, indignada e ao mesmo tempo de bem com a vida. Nessas de perder um pouco o horário, sair da rotina e conversar com as pessoas, aprendi tanto que as histórias mais malucas e divertidas chegam de onde você menos espera.


Huda deve estar agora fumando seu beck, desmontando uma garrafa pet para fazer um boneco da qual vende no ateliê. Bom, se for isso, acredito que já está muito feliz.

 
 
 

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