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Aventura para recomeçar e uma experiência quase morte

  • Foto do escritor: Beatriz Estima
    Beatriz Estima
  • 17 de mai. de 2023
  • 4 min de leitura

Recomeçar esse blog depois de três anos para falar sobre uma experiência de quase morte talvez não seja a melhor forma de voltar a escrever. Mas aqui estou eu, afinal, se é para falar de crônicas da minha vida que seja uma das mais intensas dos últimos anos.


Claro que é exagero falar que eu quase morri. Quem sabe dessa história provavelmente me conhece o suficiente para saber que também sou exagerada. No entanto, se não fosse pelos exageros não haveriam histórias para contar e do que seria o escritor, não é mesmo?


Pois bem, tudo começou com a minha terceira mudança desde 2020. Estava voltando para Minas Gerais após dois anos, por livre e espontânea vontade. Há quem diga que foram os anjos do amor que me fizeram voltar.


Eu não vou dar tanto esse crédito assim a isso, só acho que, entre qualquer lugar do mundo, nada melhor do que a terra do pão de queijo. Assim, em janeiro de 2022 eu enchia o Celta 2009 do meu pai com as milhões de pequenas coisas acumuladas para partir a uma nova aventura.


Seriam, ao todo, dez horas de viagem, sem contar as paradas para comer e descansar. Tudo bem, seria ótimo. Separei diversos CD’s entre Djavan, Caetano Veloso, Jorge Aragão e Raça Negra para embalar aquele dia. Minha mãe com seu tercinho no banco de trás, eu com o GPS no banco da frente ao lado de um pai-motorista. Depois da nossa oração de praxe, começou a nossa viagem.


Sair do estado de São Paulo foi tranquilo. O céu azul e o vento quente indicavam que haveria mais um dia daquele calor seco tão típico do interior paulista. Embalados pela música, cruzamos a fronteira dos estados animados.


As montanhas gerais já emanavam ao longe quando as nuvens pretas chegaram nos colocando em alerta. Meu pai não é o tipo de motorista que gosta de dirigir na chuva, mas, afinal, quem gosta? Isso me colocou em um constante estado de preocupação, digamos que meus sentidos aranha surgiram bem aí.


A viagem de dez horas virou doze, que logo virariam quinze...


Para quem nunca fez uma viagem à Minas de carro ou de ônibus, digamos que as curvas e os precipícios não são lá tão convidativos assim, na chuva é ainda pior. Não se via nada daquelas belas paisagens das quais eu estava acostumada e isso me enchia de arrepios.


Passamos por Capitólio e eu pensei admirada como era um sonho visitar aquele lugar, as grandes falésias, as cachoeiras, os rios... olhei embasbacada para as pessoas que, apesar da tempestade, ainda insistiam nos passeios ali. Mal sabia eu que algumas poucas horas depois, Capitólio veria uma das suas piores tragédias.


Bom, estávamos a duas horas do meu destino: Belo Horizonte e até agora tínhamos conseguido passar pela chuva sem grandes problemas. Chegando em Divinópolis uma fila de carros indicava que algo tinha acontecido. Logo já pensamos em acidentes que, afinal, tinham sido vários no meio do caminho, mas não.


Estávamos passando ao lado de um rio que corta a cidade e com aquela tempestade que há horas não dava uma estiada, aconteceu o inevitável: o nível do rio subiu e as águas avançaram para o meio da pista impedindo que carros pequenos passassem. Não tinha jeito, estávamos parados.


A chuva não dava trégua nenhuma, encostados ali ficamos sabendo do acidente em Capitólio e o meu choque por ter passado por lá há duas horas antes foi enchendo o meu peito de um pequeno terror.


A chuva era cada vez mais intensa e a água do rio cada vez mais forte chegando até nós, na estrada. Minha mãe não parava de rezar quietinha com os olhos fechados no banco de trás. Eu, assustada, tentava fazer a bateria do celular durar enquanto meu pai saía do carro e andava de um lado para o outro procurando uma saída.


— Não, doutô, lá atrás por dentro de Divinópolis está pior. Não tem como voltar. — Comentou um senhor caminhoneiro que vinha atrás da gente.


E agora? A água não parava de subir do rio e cair do céu. Ficamos por mais algumas horas sem saber o que fazer e as orações da minha mãe continuavam no mesmo passo que a água fluía. Foi quando alguns caminhões e ônibus começaram a atravessar a ponte que separava aquele rio da estrada, apesar de alagada.


Isso deu coragem para outros carros parados, que enfrentavam toda a água para dar seguimento às suas viagens. A cada veículo que conseguia sair do alagamento era um grito de vitória do nosso lado. Até que meu pai olha bem para mim e para minha mãe e diz:


— Vamos tentar passar? É agora ou nunca...


Eu só fecho o olho e concordo com a cabeça. Minha mãe agarra o terço mais uma vez e meu pai arranca o celtinha prata com toda a brutalidade que ele poderia. E assim fomos. Atravessamos a ponte alagada e deixamos o rio para trás.


Ufa! Mas, parecia que aquela viagem não ia terminar nunca e que nós não chegaríamos em Belo Horizonte. Isso porque na primeira curva, eis que o barranco desprende da encosta, pedras e terras caem como brinquedos jogados na nossa frente.


A freada foi brusca. Entre respirações ofegantes e mãos tremendo, conseguimos desviar. Nessa hora olhei para trás e a estrada tinha sido bloqueada logo em seguida por pedras e barrancos.


Enfim, chegamos em Belo Horizonte. A chuva não tinha parado nem um segundo. Na via do lado oposto, carros capotavam. A cena era realmente de filme de terror. O celular já não tinha mais bateria, assim, sem GPS chegamos ao nosso destino através das boas e velhas placas de direção.


Minha mãe, que até então não tinha dado nem um pio até chegarmos à minha nova

casa, solta um suspiro quando avistamos o portão. E me diz:


— Rezei tanto. Deus ia mostrar o caminho para gente.


Se foi Deus, obra do destino, universo... sei lá. Mas vivi toda essa aventura para conseguir iniciar um novo capítulo na minha vida e, assim, (re)começar nas terras mineiras. E, olha, que saudade que eu estava.


Só que falar sobre essa saudade já é papo para outra hora...



 
 
 

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