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O cansaço de um momento histórico

  • Foto do escritor: Beatriz Estima
    Beatriz Estima
  • 2 de abr. de 2020
  • 3 min de leitura

Quando eu era criança sempre fui apaixonada por ler histórias sobre guerras e momentos marcantes do mundo. O Diário de Anne Frank e o Diário de Guerra eram meus livros favoritos, e a apostila de história permanecia colada sob minha mesa de cabeceira. Achava a coisa mais incrível do mundo quem tinha relatos para contar de coisas que eu via apenas através de professores e livros distantes.


Uma vez, uma professora - da qual não lembro nome muito menos trejeitos - falara em sala que tudo o que produzimos, um dia pode se tornar história. Vírus também conta, professora? Não que eu achava que qualquer coisa que eu fizesse no mundo um dia seria estudado pelos historiadores, geógrafos, arqueólogos, cientistas e afins. Por isso (ou por ordem do capitalismo, como preferir), sempre foquei em participar de coisas que me trouxesse um retorno seja financeiro ou pessoal.

Até que boom!!!! Caí - e o mundo inteiro também - em um dos maiores feitos históricos do século XXI. Caí de paraquedas porque permaneci alienada sobre as mudanças que ocorria do outro lado do mundo. Afinal, o meu mundo (ou o meu país) já estava em colapso demais para eu ainda tentar entender sobre as novas demandas do exterior. É difícil e angustiante saber de tudo a todo momento. Acredite, são palavras de uma jornalista com transtornos de ansiedade.


Mas, quando o terrível e famigerado vírus, que até então só tinha assolado a China e os países da Europa, chegou na América e, mais ainda, chegou no Brasil, eu me dei conta da proporção do que estávamos enfrentando.


Para a menina que amava história, eu estava bem realizada por estar participando de um momento como esse. Afinal, essa seria uma das coisas que contaria aos meus sobrinhos: “A tia de vocês teve que enfrentar uma pandemia daquelas bem doidas que deixa todo mundo desesperado igual em filmes”. A parte ruim: estamos enfrentando uma pandemia generalizada igual nos filmes!!!!! aaaaaaaaaaaaaa


O que nenhum livro de história conta, muito menos os romances sobre guerras e revoluções, é o cansaço de viver um momento histórico importante no mundo. Poxa, Anne Frank, porque você não acrescentou no seu diário que ficar confinada em casa é chato demais, irritante pra caramba e extremamente difícil? É, talvez você tenha comentado sobre isso, mas não achei que em situações em que o inimigo é um ser acelular invisível também passaria pelo mesmo.


A questão é: cansa. Cansa demais e tentar acompanhar todas as atualizações apocalípticas do fim do mundo só te garante sessões de terapia quando o isolamento social passar. Ou até antes disso. Cansa principalmente quem está à frente dos processos de divulgação para essa população que tem sede de se informar e acaba, por assim, se desinformando.


Os profissionais de saúde lutando contra o vírus, os jornalistas contra as fake news. Os políticos contra a queda da economia. E a população contra a possível falta de renda, a provável infecção pelo vírus, a sanidade mental no lixo e óbvio (mas, não menos importante) a dificuldade do isolamento social.


É muita coisa com o que lutar com poucas armas na mão. Fazer arminha para cima agora não está adiantando muito, não é mesmo senhor presidente?! E em menos de um mês que foi declarado oficialmente o estado de pandemia mundial pelo COVID-19, eu já declaro, para os fins que somente importa para mim, o quão cansativo, triste, assustador e angustiante é presenciar e participar de um fato histórico mundial.


Talvez daqui seis meses a gente dê boas risadas sentado em uma mesa de bar lembrando do quanto as pessoas piraram durante os dias de quarentena. Talvez daqui dois anos a gente lembre, com pesar, da falta de noção do presidente brasileiro em meio à pandemia. Talvez daqui um tempo o desespero desses dias nebulosos tenham sido só marcas para se registrar nos livros de história mesmo. Talvez.


O último fator cansativo elencado por mim: não saber quando termina. Não ter prazos. É ser sempre um tiro no escuro. Ou melhor, no invisível. De cansaço em cansaço a gente faz as apostilas de histórias serem refeitas, os novos livros acrescentarem temas aos seus romances distópicos e, quem sabe, a gente também faz um mundo melhor. Mas, isso aí já é pensar num mundo colorido demais que livro de história nenhum conseguiu pintar até hoje.




 
 
 

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