E por falar em saudade, onde anda você?
- Beatriz Estima
- 24 de mai. de 2023
- 2 min de leitura
Falar em saudade sem recorrer aos clichês é quase uma tarefa impossível. Sempre tem aquele que diz que “saudade” é uma das únicas palavras no português que não há como traduzir – mas alguém já tentou traduzir “pororoca”? – Brincadeiras à parte, gosto também de tomar a saudade para mim e defendê-la com unhas e dentes da americanização das palavras. Então, vamos lá, vamos com a saudade...
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Eu sou uma pessoa recheada de saudade. E não é porque eu não vivi tudo o que queria ou porque me arrependo de algo, mas justamente o contrário: onde quer que eu esteja, a saudade das boas lembranças me persegue e difusa um pouco a realidade. Mas se for para falar de saudade, precisarei recorrer a memórias não tão frescas assim.
Em São João del-Rei, cidade onde morei por quatro curtíssimos anos, a saudade era algo estampado em todos os muros, por todas as ruas. E não é nem um pouco eufemismo, figura de linguagem ou olhar de poeta.
Realmente a palavra “saudade” foi pichada em cada parede vazia da cidade, uma vez até um caminhão levou a “saudade” escrita na sua caçamba. Todo dia que eu andava pelas ruas de São João e tomava um caminho diferente, me deparava com mais uma saudade nova pichada.
Em alguns momentos, olhar essa “saudade” nos muros doía mais do que eu conseguia expressar. Sim, São João del-Rei era o lugar das mil saudades, não só pelas pichações e nem, também, por todos os estudantes que ficam entre o limbo de turista-morador por um tempo.
A cidade cresceu fincada no passado, nas memórias que não existem mais, em uma realidade que ficou como saudade para uns e história para outros. Hoje, nas minhas parcas lembranças, São João vira uma saudade gostosa de recordar.
Como disse antes, eu sou movida a saudades e, com o passar dos anos, isso só aumentou.
A pandemia veio para mostrar que a vida frágil deixa saudade em nós de pessoas que mal tínhamos convivência. Ficamos com saudades de celebridades que nem sequer sabiam da nossa existência, sentimos as perdas e agarramos às memórias de um tempo que não é mais o mesmo.
Para além disso, sentimos saudades de um mundo que não existe mais.
Pergunte a seus pais do que eles sentem saudades e, talvez, a resposta não seja tão diferente da sua. A maioria de nós agarra a simplicidade de um momento, as risadas verdadeiras, os abraços quentes, e esquecemos de todas as partes ruins que também constitui o dia a dia.
E, essa é a beleza da saudade. Essa é a beleza de sentir.
Aos 25 anos, sinto saudades todos os dias. Da família, dos amigos, do restaurante que fazia o meu bolo de banana preferido, das aulas de dança, das conversas filosóficas na lanchonete mais fuleira às quatro da manhã, do sobrinho aprendendo a escrever meu nome, do beijo de boa noite da minha mãe.
São muitas saudades para uma única memória. Mas, no fundo, são todas elas que fazem quem eu sou hoje. E para você, quais são as saudades que te constitui?




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